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A dificuldade na tomada de decisões


Gostaria de começar esse artigo sobre Tomada de Decisões narrando uma parte de um livro português de 1973 chamado “As Aventuras de João Sem Medo”.

João morava em uma aldeia e ninguém se atrevia a atravessar a floresta, os moradores choravam de manhã até a noite e não tinham força para nada. O único que não se comportava dessa maneira era João que era chamado João Sem Medo.

Um dia, João resolveu saltar o muro, mesmo contrariando sua mãe, entrou na floresta e depois de algum tempo se deparou com dois caminhos (clássico em várias estórias): um asfaltado, cheio de amendoeiras em flor e outro, pedregoso com espinhos e urtigas.

Pensou: “Aqui estão os dois caminhos: o do Bem e o do Mal”.

João pediu a presença de uma fada (como nos contos) e apareceu um homem fantasiado de fada e disse que o caminho bom conduzia à Felicidade e o mau, à Infelicidade.

Assim, João decidiu ir pelo caminho mais bonito, mesmo achando muito fácil isso.

Ao entrar nesse caminho, encontrou uma figura monstruosa sem cabeça, com os olhos no peito e a boca no estômago e que disse: “Que a paz e a estupidez estejam contigo” e perguntou se ele estava preparado para a operação.

João perguntou sobre a operação e o descabeçado disse que ninguém poderia seguir o caminho que leva à Felicidade Completa sem consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas; além de trazer nos pés e nas mãos correntes de ouro.

João recusa esse caminho mesmo o descabeçado dizendo que teria tudo de graça, se escolhesse o outro caminho sofreria e até dizer que poderia manter sua cabeça, apenas sugando o que estivesse dentro dela.

Assim, João segue para o outro caminho dizendo que jurava que não seria infeliz porque ele NÃO queria.

Essa parte da estória retrata bem o porquê das pessoas terem dificuldades na tomada de decisões.

Decisões acontecem a todo minuto, desde o momento em que você desperta e decide se levanta naquele momento ou fica mais 5 minutos na cama, o que vai vestir, o que vai comer, o que fará com aquele contrato, mudar ou não de emprego, como vai abordar um novo cliente, vender ou não a empresa, enfim, da mais simples à mais complexa, a tomada de decisões faz parte do nosso dia a dia.

E por que muitas pessoas sofrem para tomar decisões?

Vamos descrever os fatores que dificultam a tomada de decisões:

Incerteza – Os moradores da aldeia do João Sem Medo têm medo do desconhecido, por isso decidem não sair de algo que pode não ser o melhor, mas é conhecido e por ser conhecido sabem como lidar com ele. Definitivamente, nunca saberemos se tomamos a melhor decisão e isso faz com que as pessoas adiem ou demorem muito tempo para decidir, pois querem ter a certeza de que estão dando o passo correto. Digo que precisamos pensar, analisar e decidir pelo o que é melhor para AQUELE momento. Não adianta sofrer pelo caminho não percorrido, pois nunca saberemos o resultado dele. O que precisamos é transpor os obstáculos que aparecerão no caminho que decidimos tomar, enfim, talvez sejam necessárias outras decisões. Querer ter a certeza faz com que as pessoas não saiam do lugar.
Complexidade – João Sem Medo citou os dois caminhos: um do Bem e outro do Mal, como se fosse fácil identificar um e outro. O mundo é complexo, ele não é preto ou branco, ele tem vários tons de cinza que muitas vezes temos dificuldades de identificar, pois há linhas muitas tênues que separam um tom do outro. O caminho aparentemente mais fácil para o João Sem Medo o levaria a muitos benefícios, porém ficaria sem a cabeça, enquanto o outro de maior sofrimento poderia ter um resultado melhor, mas também sem saber. Então, qual o melhor? A decisão não é tão simples assim.
Objetivos múltiplos – Muitas pessoas têm vários objetivos e isso faz com que se percam ao longo do caminho, pois querem tudo e, às vezes, acabam ficando sem nada, pois não tomam decisões adequadas.
Diferentes pontos de vista – O descabeçado achava uma loucura João Sem Medo ir para o caminho cheio de pedregulhos porque lá seria apenas sofrimento e, se percorresse o caminho que estava indicando, seria bem feliz, pois sem a cabeça não precisaria pensar, apenas viver na bonança. Já João Sem Medo preferia ficar com sua cabeça e decidir por conta própria seus caminhos e acreditava que não é um caminho que definiria a sua infelicidade, mas sua própria vontade.
Gera possibilidade de mudança – Quantas pessoas reclamam que não têm resultados, mas continuam fazendo a mesma coisa? Os moradores da aldeia são os exemplos disso. Choram o dia todo, mas não fazem nada de diferente, pois a mudança pode ser assustadora. Você terá que aprender coisas diferentes, terá que lidar com novas situações, enfim, tomar decisões. João Sem Medo, ao contrário, queria sair da zona de conforto, ver um novo mundo.
Abrir mão de algo – João Sem Medo ao deixar sua aldeia abriu mão de sua zona de conforto, de sua mãe, de seus amigos para trilhar um caminho desconhecido, de novas aventuras e experiências. Na estória, não nos parece um grande sacrifício, porém quando nos deparamos no dia a dia, é algo que imobiliza muitas pessoas, pois elas gostariam de ter tudo. Porém, em muitos momentos, precisamos definir algo para que possamos alcançar nosso objetivo.
Alguns pontos que me chamam atenção nessa estória e que gostaria de ressaltar:

1. João Sem Medo chamou a fada para orientá-lo e ela não disse nada diferente do que ele imaginava, mas apenas para reafirmar sua decisão de seguir pelo caminho mais bonito; mesmo cismado de que isso parecia muito simples. Será que algumas pessoas não chamam “fadas” para ajudarem na decisão e no final não causam o resultado esperado? Precisamos contar com a opinião de pessoas que serão afetadas pela decisão e que poderão verdadeiramente nos ajudar a tomá-la, mas não qualquer pessoa. Às vezes, sabemos qual o caminho tomar e precisamos apenas que alguém o valide para termos mais conforto. Outras vezes, vejo pessoas que chamam outras apenas para compartilhar a culpa se o resultado não for bom. Por isso, temos que mapear as pessoas mais adequadas e que podem nos ajudar.

2. A fada diz que o caminho bonito leva à Felicidade e o outro à Infelicidade e João Sem Medo resolve ir pelo mais bonito, mesmo desconfiado. Temos que entender que as soluções nem sempre são simples, mas também nem sempre são tão complicadas. Às vezes, temos a impressão de que está tudo muito fácil e por isso não devemos optar por este caminho, aí acabamos complicando tudo e não chegando a lugar nenhum. Ao entender os vários tipos de decisões que existem, conseguiremos identificar quando devemos ir por um caminho mais fácil e quando precisamos optar por outros. Por isso, uma análise é algo importante a ser feita sempre.

3. Quando o descabeçado diz ao João Sem Medo que ele deveria ter a cabeça cortada para ser feliz porque não precisaria pensar, não poderia ter ideias perigosas e nem opinião me faz refletir sobre quantas pessoas “descabeçadas” temos por aí que não querem e não gostam de tomar decisões e vão sendo levadas pelas outras. A tomada de decisões implica em responsabilidade e comprometimento e muitas pessoas não querem ter isso, preferem a sua “paz”. Por isso é interessante quando o descabeçado fala: “Que a paz e a estupidez estejam contigo”. Pessoas alienadas não sofrem porque pouco se importam com o que está acontecendo no mundo, não têm novas ideias e vão vivendo. Pessoas que pensam podem levar a empresa para um outro nível de engajamento, produtividade e resultado e isso pode ser “perigoso”, pois a empresa terá que enfrentar mudanças, sair da zona de conforto e poderá estar muito a frente de seus concorrentes.

4. Ao decidir pelo caminho pedregoso, João jura que não será infeliz porque não ele não queria. Esse é o ponto principal da questão de tomada de decisões. Talvez, para muitos não esteja claro, mas todas as decisões tomadas por João tinham um propósito: a busca da felicidade e é isso que facilita o processo. Quando não se tem a menor ideia do que se deseja, as pessoas ficam rodando no mesmo lugar. Quando se sabe onde se quer chegar, tem um objetivo, as decisões vão sendo tomadas para convergir para isso. As decisões empacam porque não há um norte e, além disso, o tomador de decisão deve assumir a responsabilidade por ela, o que muitos não querem.

Tomar decisões é um hábito, quanto mais se pratica, mais o processo é facilitado. Experiências fazem a diferença. Sair da zona de conforto, lidar com pessoas, enfrentar o medo da complexidade e da responsabilidade pode te fazer um expert na tomada de decisões pessoais, profissionais ou empresariais.

Se você quer ser o dono de sua vida, tome decisões! Caso contrário, não reclame se as pessoas tomarem por você. A vida não aceita vácuo…

Lembre-se disso!

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