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Estratégia e Resultados: Como aproximá-los? by Roberto Ambrósio


Meu amigo Roberto Ambrósio, instrutor do Empretec, enviou um artigo interessante que compartilho com vocês. Segue texto na íntegra:

Minha mulher é chef , dá aulas para adultos e crianças e sempre cozinhamos juntos. Numa dessas oportunidades ela disse algo que me fez pensar muito: Que o ato de cozinhar é uma das poucas oportunidades que as pessoas têm de imaginar algo e realizar exatamente como imaginaram. Pense comigo: Eu estou com vontade de comer uma salada de frutos do mar. Espaço pra salivar (sonhou, salivou). Saio atrás de camarões, lulas, um peixe branco firme que não se desfaça na salada, mexilhões graúdos, um azeite perfumado, penso e escolho ervas que combinem, procuro por pimenta rosa…tudo com extremo cuidado e precisão. Afervento tudo com muito cuidado, respeitando a consistência de cada ingrediente, tomando cuidado pra não perder os tons rosa , os vermelhos vivos e os brancos; misturo tudo, refogo no azeite, mexendo com muito cuidado, admirado com o brilho das lulas e pronto…o resultado. Minha mulher tinha razão, é exatamente como eu queria. E o gosto é fantástico. Lá pelo terceiro ou quarto bocado, vibrando de satisfação e sentindo a combinação perfeita entre o azeite, o mar e o vinho branco eu ainda ouso pensar que dava para melhorar aqui e ali, na próxima um pouco mais de azeite ou quem sabe uma pitada de açafrão da terra…

O que aconteceu no parágrafo acima bem poderia ter como cenário um lugar bem diferente da minha cozinha. Vamos pensar em nossas empresas. Por que os resultados nem sempre são os que imaginamos? Por que não temos tanta atenção nos detalhes da escolha das matérias primas, pessoas, processos? Por que temos dificuldade de manter o interesse e por momentos perdemos a paciência que nos permitiria curtir e vibrar a cada etapa vencida? E principalmente, por que ,às vezes, nos esquecemos de imaginar e sonhar?

Leio diariamente uma grande quantidade de textos sobre gestão e a preocupação dos especialistas, no momento, é com a execução das estratégias pensadas. E tome líder isso e líder aquilo; o que inspira, o que comanda, o que sabe ser duro, servidor, carismático, etc, etc. Alguns chegam a dar a impressão que com um bom líder poderíamos resolver qualquer problema dentro de uma organização, mas todos sabemos (principalmente nós que lideramos) que não acontece assim. As dificuldades são muitas e no fim das contas todos nós temos histórias tristes para contar. Estou há 40 anos empreendendo e há 12 trabalhando como facilitador em processos de grupo dentro de empresas, em contato direto com líderes. Posso dizer que muitos deles encaram a gestão de pessoas como o um problema que não querem enfrentar:O maior desafio, o imponderável, o imprevisível, o céu e o inferno da organização, onde as coisas dão errados, e por aí vai (só estou relatando os comentários publicáveis). Milhares de livros e artigos sobre liderança publicados por ano no mundo todo e poucos textos falando sobre as pessoas que trabalham, que deveriam formar os times que atingiriam os resultados, as metas estrategicamente determinadas.

Temos aí uma receita que não tem muitas chances de funcionar: Liderança superestimada e pessoas subestimadas. Um prato desbalanceado e de difícil digestão. Centralização, conflitos, excessos, incompreensão, rompimentos, perdas, mágoas e talvez resultados ruins. Metas não atingidas.

O que pode acontecer quando um líder exerce o poder de posição (de dono ou de gerente), de competência (maior saber) e coerção (ameaças implícitas explícitas) diariamente, numa rotina imutável? Como se comportará uma equipe liderada dessa forma? Obviamente se sentirá desmotivada, ameaçada e se comprometerá pouco com o resultado. O que poderia mudar se o líder utilizasse mais seu poder de identificação (colocar-se mais como membro da equipe), de ligação (buscar e distribuir benefícios conseguidos em sua rede de contatos) e recompensa ( reforçando e premiando de forma inteligente os bons resultados das pessoas e da equipe)? Existe um líder assim? O que acontece com suas equipes?

Vou falar apenas da prática. Prometo não dar aqui nenhuma nova receita que você não seja capaz de ser realizar na sua própria cozinha. E principalmente não vou citar nenhum grand chef e suas receitas infalíveis e algumas vezes incompreensíveis.

As empresas nas quais trabalhei e convivi, e onde percebo melhores execuções têm algumas coisas em comum:

As atividades são claras (todos sabem o que fazer) e existe um sentido (um por que deve ser feito) nas atividades que é compreendido por todos dentro da empresa. Esse sentido desperta a sensação, em algumas pessoas, de que elas estão no lugar certo, que nasceram para fazer aquilo que fazem.

As pessoas conversam. Não por e-mail ou MSN. Pessoalmente. Olho no olho. De frente. Espontaneamente. Elas se conhecem bem. Convivem dentro e fora do ambiente de trabalho.

Essas empresas normalmente têm líderes que perguntam à uma pessoa da equipe: Como você fez? E ouvem (todos ouvem) cuidadosamente a resposta que normalmente contém as experiências dessa pessoa, às vezes misturadas a metáforas e até fatos de sua vida passada que têm tudo a ver com a solução encontrada ou a idéia nova. As idéias são aplicadas. Uma considerável parte do poder de posição da liderança é diluída na equipe e uma pequena parte dele se transforma em poder pessoal para uso de cada membro dessa equipe.

As empresas boas executoras aproveitam o que as pessoas sabem e estão atentas às ligações que as pessoas fazem entre seu conhecimento pessoal e os processos e mercado da empresa. Encorajadas pela abertura, as pessoas combinam seu conhecimento como consumidores, técnicos, donas de casa, motociclistas, pais, mães, skatistas, artesãos, com o conhecimento necessário para alavancar novos processos dentro da empresa e torná-la mais competitiva. Todos são estimulados a pensar em novos usos dos produtos ou serviços da empresa e a ampliar essas ligações.

Finalmente essas empresas aceitam as idéias e ações vindas de fora da liderança e transformam esse banco de conhecimento em ativo da companhia. Uma equipe que faz uma busca de informação junto a um grupo consumidor traz as necessidades e dificuldades desse consumidor e as debate com a equipe até que todos internalizem essas necessidades e passem a agir a partir dela.

Como vocês podem ver, não é uma receita complicada. Tem alguns ingredientes difíceis de achar, é verdade, mas não é impossível de realizar. Basicamente o que tenho feito em meus trabalhos com processos de grupo é conseguir permissão das pessoas e líderes para que esse processo se instale e evolua.

O resultado disso? Lentamente retorna a satisfação e o velho e importante sentimento de se pertencer a um grupo que junto consegue realizar. Aos poucos a paciência com os erros aumentam, as recriminações e culpas vão desaparecendo e fica a aprendizagem. Passo a passo a equipe empodera-se dos processos e passa a avaliar-se e a criticar de forma responsável seu próprio processo como equipe, entendendo de forma profunda suas forças e suas fraquezas.

Em equipes que atingem esse nível de auto conhecimento as desistências, atrasos, demissões são mínimas, há fluidez de pensamento e rapidez de decisão. As pessoas são mais donas de seu tempo. Comentam realizações da empresa como se fossem suas e se sentem realizadas. Em equipes assim as pessoas são mais felizes.

E os líderes? Mandam menos, sentem-se menos sobrecarregados, têm tempo para sua vida familiar, não apontam culpados e não vivem se desculpando. Buscam melhorar resultados mesmo quando eles são ótimos. Líderes assim têm tempo para sonhar (e salivar) diante dos sonhos que concretizam.

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